Os escravos no sul de Mato Grosso Chegada Os primeiros escravos entraram no sul de Mato Grosso com os bandeirantes. Com a implantação de alguns povoados, neles apareceram os escravos, como foi o caso da fazenda Camapuã, onde, segundo H. Florence, havia (em 1826) uns cem escravos, “postos, todas as noites, debaixo de chave”. Outros núcleos Com o povoamento da região de Santana do Paranaíba, hoje Bolsão Sul-Mato-Grossense, aí também chegaram escravos, trazidos pelos pioneiros. José Garcia Leal, líder daquela região, mandava comprá-los no Rio de Janeiro. Nas vilas de Miranda (então compreendendo Nioaque) e Albuquerque (Corumbá), também havia escravos. Tratamento No sul de Mato Grosso, os escravos não tinham o tratamento das regiões de monocultura (café e cana-de-açúcar). Aqui eram eles verdadeiros agregados, trabalhando na pecuária e na agricultura de subsistência. Tanto que não há notícias de senzalas. Negócios de escravos Ouve-se com freqüência que os escravos eram negociados. Na época, isto era comum, até com registro em cartório. Mais: deviam figurar nos inventários, porque patrimônio. Inaceitável que aparecessem no rol dos bens semoventes. Na obra “Como se de ventre livre nascido fosse” (coord. de Yara Penteado, associada do IHGMS), há inúmeros desses documentos: de compra e venda, inventários, alforria, de usufruto. Estatística No censo de 1872 (logo após a Guerra da Tríplice Aliança), havia 142 escravos em Miranda (3.852 habitantes), 275 em Corumbá (3.361 habitantes) e 354 em Santana do Paranaíba (3.234 habitantes). Total: 10.447 habitantes e 771 escravos. Em números aproximados: os escravos representavam 7% da população. Movimento abolicionista O sul de Mato Grosso foi pioneiro na luta abolicionista. Sem discursos, sem alarde, os líderes daqui foram conseguindo a alforria dos escravos. Em Santana do Paranaíba, o Padre Francisco de Sales Sousa Fleury conseguiu a liberdade de inúmeros deles, iniciando com o exemplo de casa, alforriando os seus. Acrescente-se que padre Fleury teve, de sua escrava, quatro filhos. Camapuã Os escravos da fazenda Camapuã ficaram entregues, a partir de 1840, ao próprio destino. É que, falecendo o titular daquela propriedade, os herdeiros não se interessaram por ela. Sem senhor, os escravos tomaram diversos destinos. Uns foram para o Corredor, local pouco adiante de Camapuã. Outros desapareceram. É possível que um grupo deles se tenha refugiado na atual Furna dos Dionísios, nas proximidades de Campo Grande. Vale informar que todos eles sofriam de bócio (papeira). Miranda Em Miranda, no dia 12 de fevereiro de 1885, o Clube Emancipador Mirandense promoveu uma sessão solene (ver Estêvão de Mendonça, “Datas Matogrossenses”, p. 90), em cuja abertura “foram declarados completamente livres os escravos da Vila de Miranda, por entre estrepitosas salvas de palmas e estrondosos vivas”. O arraial de Campo Grande pertencia, naquela data, à vila de Miranda. Lei Áurea Na data da assinatura da Lei Áurea praticamente não havia mais escravos no sul de Mato Grosso. Tanto que não se conhece qualquer reflexo daquela lei na economia regional.
Autor: H. Campestrini () |